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O segundo dia do ano é o primeiro dia de tudo. Depois da comilança, da ressaca – muitas vezes moral – do consumo das sobras – afinal, quem ousa dispensar os restinhos da ceia? – do engarrafamento, eis que se descortina à nossa frente um ano cheio de possibilidades. Livres das obrigações de Natal e Ano-Novo, estamos mais uma vez como crianças ansiosas na plateia, olhos ávidos à espera do show.

E nada pode superar, na vida mundana que levamos, o que está por vir. Por mais que busquemos o presente, por mais que meditemos, ainda somos, na grande maioria, insatisfeitos movidos pelo futuro. No primeiro dia de tudo, pouco importa se o sentimento que nos invade é o mesmo que nos invadiu há um ano. Pouco importa se estamos a repetir velhas e esperadas fórmulas. As possibilidades são o que nos mantêm vivos. A esperança vai ser sempre combustível para cabeças e corpos famintos por dias melhores.

Se no ano que findou o dinheiro foi pouco, agora pode ser que ganhemos mais. Se os amores foram parcos, quem sabe esse ano se conheça alguém capaz de provocar borboletas no estômago; se o trabalho foi motivo de desgosto, quem sabe agora o talento seja reconhecido; se tudo pelo qual esperávamos no ano que passou ainda não concretizou, quem sabe agora vai. E se somos daquele time de afortunados que chegou no dia 31 com um caminhão de coisas para comemorar, sempre há um cantinho de vida que queremos melhorar, queremos mais. É da nossa natureza.

Agora vai! Agora vai! Assim parecem se resumir as felicitações do dia 1º, invadidos que somos por uma enxurrada de memes coletivos de bons augúrios. Paz, amor, saúde, felicidade, harmonia, alegria, dinheiro, fartura, empatia, quem é capaz de não desejar? Quem é louco de não querer? E como é boa a sensação de que ao mudar o ano, a vida muda.

E como essa sensação dura pouco. Janeiro chega arrebatador. A trégua dos relacionamentos, que possibilita abraços e afagos entre amigos e familiares, dura o exato período das festas. Por mais carinhosos e afetuosos que sejamos, e por maior que seja verdadeiro o desejo de estar junto, quem é honesto consigo sabe: é com certo alívio que nos despedimos e rumamos cada um para suas casas, para seus afazeres, para suas vidas, para seus sonhos. Como é bom estar junto. E como é maravilhoso estar só.

O segundo dia do ano é o primeiro dia de tudo. O dia em que novamente nos damos conta de que a vida segue seu rumo, de que nada muda se não mudarmos internamente, de que a virada é só uma data. Uma festa. Nos preparamos para ela, nos divertimos, amamos e compartilhamos. Soltamos fogos, rimos, choramos. E a festa acaba com o amanhecer, indelével, trazendo com o fim a lembrança de que foi muito boa, de que comemorar nos completa, mas que esperar por ela ainda é o melhor.

Que os dias de 2019 sejam assim, inspiradores como os dias que antecedem um baile. Que possamos passar esses 12 meses escolhendo nossa melhor roupa, ensaiando a mais bela dança, elegendo nosso mais delicioso par. A festa, em si, passa muito rápido. Antecipá-la, vivendo-a a cada dia, é o que nos faz gente, o que enche nosso espírito de luz, o que acalenta nossa alma. Feliz 2019!

Post Author: Dani Goulart

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